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Sormany: bombeiro, cego e condutor de esperança

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Ele perdeu a visão aos 40 anos, após a retirada de um tumor na parte frontal da cabeça. Reinventou-se, e segue salvando vidas e inspirando pessoas

* Por Marcionila Teixeira 

O bombeiro Gil Sormany Beserra Silva tinha 40 anos de idade quando a escuridão tomou por completo sua visão pela primeira vez. Foi algo rápido, apenas dois minutos. Mas parecia o tempo da eternidade. Naquele junho de 2009, Sormany tinha acabado de almoçar. Dirigia um caminhão na companhia de outros três colegas. Juntos, trabalhavam na Ilha de Fernando de Noronha e seguiam para resgatar uma lancha da corporação. Repentinamente, sem enxergar, Sormany pensou rápido e conduziu o veículo de forma segura até estacionar. Salvou a própria vida e a dos companheiros. Esse não seria seu último salvamento. Mesmo sem a visão dos dois olhos, Sormany segue cumprindo o juramento feito em 26 de julho de 1990. Diz ser o único bombeiro cego do País na ativa. Em 20 de outubro, é comemorado o aniversário do Corpo de Bombeiros.

Sormany prestou atenção ao aviso contido naquela repentina escuridão. Ainda mais quando, dias depois, não conseguia ler com clareza sequer um relatório que acabara de fazer na corporação. Deixou Noronha e procurou um médico em Garanhuns, onde viveu com a companheira, Hôgla Sea Barros Wanderley Silva, 51. Descobriu um tumor benigno, com 7 cm, na região frontal da cabeça. A retirada aconteceu em uma cirurgia de quase oito horas, no Hospital da Polícia Militar, no Derby. A intervenção salvou o bombeiro, mas lhe custou a perda do paladar, do olfato e da visão. Sormany precisava se reinventar a partir dali. Assim fez.

O sargento completou 51 anos, segue como palestrante do Corpo de Bombeiros e telefonista. Assim, ainda salva vidas. Por duas vezes, com uma simples ligação telefônica, ajudou mães desesperadas a solucionarem os engasgos dos filhos. Em palestras, costuma contar sua experiência e, assim, inspira outras pessoas a seguirem em frente, mesmo com obstáculos aparentemente intransponíveis. “Isso não tem preço. Inspiro confiança nas pessoas. Elas pensam: o cara sem a visão não parou. Por que eu vou parar diante dos meus problemas?”. Sormany tem razão.

O bombeiro somente conseguiu seguir na ativa graças à luta travada junto com a companheira, o major Mamede e outros simpatizantes de questões ligadas a pessoas com deficiência. Um dia, em 2013, Hôgla se aproximou do então governador Eduardo Campos e falou sobre a proposta de criação de uma lei para manter bombeiros ou policiais civis e militares na ativa, mesmo diante de acidentes que os tornassem pessoas com deficiência, caso esse fosse o desejo do servidor. Campos apostou na ideia e, em 19 de setembro de 2013, assinou a lei nº 15.093. O decreto nº 40.193, que regulamentaria a legislação sancionada, veio logo em seguida, em 11 de dezembro do mesmo ano. Sormany foi o primeiro militar beneficiado pela lei. Antes disso, as pessoas eram reformadas automaticamente.

Há algo sobre limites que o sargento desconhece. Antes de perder a visão, praticava esportes, e até integrou a base do Central Futebol Clube, em Caruaru. Hoje, costuma participar de competições de corrida (com guias) e é praticante de goalball, um esporte coletivo com bola praticado por atletas com deficiência visual, criado em 1946, cujo objetivo é arremessar uma bola com guizos, para que ela entre na baliza do adversário.

Durante a cirurgia de retirada do tumor, o nervo óptico de Sormany foi preservado. Isso significa, segundo sua médica, que um dia a visão do bombeiro pode voltar. Mas ele nem tem tanta certeza dessa necessidade. Exige mesmo da vida é respeito para com as pessoas com deficiência. Um piso tátil e rampas em áreas públicas e prédios, por exemplo, são um bom começo para garantir o direito de ir e vir de pessoas cegas. Isso se chama liberdade.

Uma história que Sormany gosta de contar, sempre que tem oportunidade, fala de possibilidades: certo dia, três meses após perder a visão, ele foi a um campo de futebol de uma escola em Garanhuns, onde costumava jogar. Jovens competiam e a mulher dele lhe relatava as jogadas. Em dado momento, um dos competidores terminou com uma fratura exposta ao colidir com um colega. Sormany se levantou, aproximou-se do garoto e prestou os primeiros socorros. Quando a equipe de salvamento dos Bombeiros chegou para continuar o atendimento, flagrou a cena daquele homem cego junto ao menino. Os quatro bombeiros choraram. Naquele dia, muita gente nem sabia da ausência de visão de Sormany, porque o bombeiro reaprendeu a enxergar. De um jeito único e inspirador.

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